Violência contra a mulher com Débora – fundadora @maselenuncamebateu

Hey, Habib! Hoje abordaremos a violência contra a mulher nas suas mais diversas formas: psicológica, física, moral, patrimonial e sexual. Conheça a causa de Débora, uma mulher comum que fez da sua experiência com um relacionamento abusivo, motivação para apoiar, acolher e inspirar outras mulheres a se libertarem de relações doentias. Débora fundou o @maselenuncamebateu, atualmente o maior perfil do instagram para acolhimento a vítimas de violência contra a mulher. Hoje, 1 ano e 4 meses após sua iniciativa, são mais de 153 mil mulheres unidas na mesma causa.

O perfil mostra um público de mulheres reais, que engajam e se identificam com as publicações que costumam relatar, de forma anônima, casos reais de violência, bem como informações de apoio, incentivo e conscientização. Cerca de 30 a 50 mulheres buscam apoio diariamente para pedir ajuda ou simplesmente compartilhar sua história. Agora, vamos conhecer um pouco mais sobre Débora e sua causa.

Débora, primeiramente gostaria de te parabenizar como mulher, por liderar uma causa tão nobre e por sua força em fazer de uma situação tão difícil, combustível para lutar ainda mais por outras mulheres. Conta pra gente um pouco da sua história de vida, sobre a mulher comum que começou um movimento tão significativo para a nossa sociedade.

Obrigada, estou grata pelo seu convite e de poder dividir minha historia com vocês! Bom, eu passei por um relacionamento abusivo durante oito anos onde eu vivi diversos tipos de violência, na grande maioria das vezes psicológica, e isso me destruiu muito. Eu perdi grande parte da minha vida; eu só era uma menina de 19 anos que num piscar de olhos estava gravida e casada. Fiquei refém por oito anos. De inicio era dependência emocional, com os passar dos anos eu deixe de amar e fiquei presa financeiramente sem ter com escapar. Mas hoje graças a Deus e a minha mãe, que me apoiou e me apoia bastante, eu me livrei de uma vida muito infeliz”.

Hoje com 28 anos estou finalmente começando a recuperar os anos, os planos e a alegria que me foi roubada a oito anos atras. Tenho um filho lindo de 8 anos, que é autista, meu lindo anjo azul que preciso me dedicar 100%. Sou comerciante e entre todas as tarefas do dia a dia vou ajudando e salvando essa mulheres que agora fazem parte da minha missão de vida nessa terra. Faço das palavras da Audre Lord as minhas: Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas’’.

Débora - fundadora do @maselenuncamebateu
Débora – Fundadora do perfil @maselenuncamebateu

A pergunta que não quer calar e, possivelmente, uma dúvida frequente é: como surgiu o “@maselenuncamebateu”?

Bom, a página Mas Ele Nunca me Bateu surgiu dessa relação que tive, que foi minha inspiração; eu queria poder  fazer algo pra ajudar meninas como eu fui um dia a ‘’acordar’’ e sair enquanto ha tempo, e mulheres como sou hoje, a sair dessas relações e vidas infelizes e sentir o que sinto hoje (LIBERDADE). Então nasceu a página “Mas Ele Nunca Me Bateu”. Frase que eu sempre ouvia quando reclamava do meu ex para alguém da família. “AH MENINA ELE É TÃO BOM, TRABALHADOR; NUNCA TE BATEU”. Bateu sim, bateu em lugares que não apareciam, deixou marcas que não se curam como as físicas. Ele roubou boa parte da minha vida”.

Às vezes muitas mulheres não se dão conta que, fora o número catastrófico de violência física contra a mulher, existem outros tipos de violência que fere além da pele. Explica pra gente um pouco mais detalhadamente sobre a sua causa que engloba a violência contra a mulher não apenas física, mas psicológica, moral, sexual e patrimonial. O que caracteriza cada uma delas e a importância dessa conscientização.

Sim, é muito importante falar sobre. O maior foco da pagina é falar exatamente sobre isso, desde o nome do perfil a todos os relatos e conscientização. Dentro da Lei Maria Da Penha existem 5 tipos de violência contra a mulher mas somente uma é mais conhecida entre a maioria das vitimas, que é a física. Mas além dessa, existem outras 4 que passam despercebidas”.

5 tipos de violência contra a mulher
  • Psicológica: Quando o agressor tem ciúmes em excesso, controle, humilhações, ironias, ofensas, acusações não reais com intuito de “virar o jogo” em uma briga, por exemplo. Ela passa muito despercebida e poucas mulheres sabem que estão sendo vitima de um tipo de agressão, a pior delas na minha opinião.
  • Moral: Ocorre quando o agressor faz calunia, injuria e difamação, como por exemplo denegrir sua reputação. Isso e um tipo de violência.
  • Sexual: Que é quando o agressor obriga uma mulher a manter contato sexual, ou a participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação, coerção, chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule ou limite a vontade pessoal dessa mulher, considera-se como violência sexual. Que ocorre muito nas relações abusivas, na maioria delas dentro do casamento.
  • Patrimonial: Essa é na minha opinião a que mais passa sem conhecimento. A maioria das mulheres que converso não sabem da existência dessa violência. Ocorre  quando você sofre algum tipo de dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores por parte do seu agressor. Por exemplo: quebrar seu celular, rasgar suas roupas, pegar seus documentos, etc.
  • Física: É a mais conhecida dentro da lei. Sendo uma ação ou omissão que coloque em risco ou cause dano à integridade física de uma pessoa.
Conscientização

É de extrema importância a gente estar conscientizando essas mulheres para que elas identifiquem o tipo de violência que estão sofrendo e possam se sentir seguras pra sair dessa relação abusiva. Que elas entendam que agressão vai além de um tapa, um empurrão ou um soco, que o que ela sofre silenciosamente e sem dor física pode causar danos psicológicos que vão doer muito mais que um tapa. A sociedade em si precisa parar de romantizar relações que não existem agressão física e entender que nosso sofrimento diário como mulher vai muito além”.

Violência contra a mulher
Depoimento real – @maselenuncamebateu
Sendo você a mulher por trás do perfil @maselenuncamebateu, conta pra gente como a maioria das mulheres tem o seu primeiro contato com você. Elas buscam socorro um imediato, conselhos, apoio, compartilhar sua experiência ou te abordam de outra forma?

Além de mim, conto com a ajuda de mais 4 amigas que são administradoras da pagina. A Dara, Julia, Ana e Camila que aceitaram esse convite e se voluntariaram a me ajudar nessa luta, e ajudar essas mulheres. Quando fiz a pagina, a demanda de pedidos de ajuda por mensagens foi aumentando com uma velocidade tristemente enorme. Eu senti que precisava de ajuda pra acolher rapidamente essas mulheres. Então encontrei esses 4 anjinhos que eram minhas seguidoras, pra me ajudar. E hoje, nós 5 ajudamos essas mulheres”.

O contato é feito via Direct no Instagram; ali fazemos o primeiro acolhimento e mediante a situação da vitima oferecemos apoio psicológico e jurídico feito pelas psicólogas e advogadas voluntárias da pagina. O meu número pessoal também fica  disponível no perfil pra quem precisar de ajuda urgente. Também acolhemos via e-mail, mas o primeiro contato é sempre no próprio instagram”.

Que tipos de relatos você recebe com mais frequência e quais instruções você passa à vítima? Se puder, cite um caso que te marcou, anonimamente.

“Os mais frequentes são agressões psicológicas. Sempre instruo que a vitima busque ajuda psicologia e busque uma rede de apoio física, como amigas, família, que possam ajudar presencialmente ela a sair da situação atual. E ofereço meu apoio e da minha equipe pro que ela precisar. Já ajudamos com orientações e financeiramente muitas mulheres a sair da relação abusiva que estavam”.

O caso que mais me marcou foi o de uma seguidora que estava tendo um aborto espontâneo no banheiro e o companheiro, quando viu ela sem forças e sangrando, fez sexo com corpo dela e a deixou ali sozinha no banheiro. Estuprou-a e foi embora como se não fosse nada.

Hoje ela está bem e não tem mais nenhum contato com o agressor. Mas isso me marcou demais, é muito doentio uma pessoa fazer isso com a outra.

Sabemos da dificuldade que é encontrar apoio sincero em momentos de dificuldade e principalmente, o quanto ainda precisamos lutar pelo apoio entre mulheres, a sororidade. Como você acha que cada pessoa, independente do sexo, poderia ajudar na conscientização da violência contra a mulher?

Sim, vejo que muitas pessoas ainda julgam as vitimas ao invés de apoiar. Hoje temos uma imensidão de plataformas para essa desconstrução social; as pessoas estão cada vez mais cientes do quão importante é salvar essas vidas em risco. Acho que só das pessoas pararem de julgar a vitima e fazer perguntas como: “porque ele fez isso, o que você fez?” ou usar frases como “Se fosse comigo, eu faria…’’ Já é uma forma de ajudar bastante. Fora isso, existem muitas maneiras de ajudar uma mulher vitima de violência, como por exemplo: metendo a colher’’.

Você pode denunciar anonimamente via 190, uma briga que você vê na rua, ou na casa dos vizinhos, ou em um bar. Você pode até intervir se preciso for. Para quem já é consciente, espalhe isso, compartilhe formas de ajudar uma mulher; compartilhe os tipos de violência. Grite ao mundo que estamos pedindo socorro, para que as pessoas ouçam isso e saibam o que fazer”!  

Violência contra a mulher
Depoimento real – @maselenuncamebateu
Além do perfil no instagram, existem grupos de apoio e interação em outras plataformas?

“Sim, nós temos o blog que é o maselenuncamebateu.blogspot.com. Temos o e-mail que é o @maselenuncamebateuig@gmail.com. Temos um grupo de apoio no whatsApp, que tem uma das nossas psicólogas lá, prestando apoio juntamente com todas as administradoras e mulheres que apoiam umas as outras voluntariamente. Em breve estaremos expandido para o Facebook e Twitter para alcançar mais mulheres”!

Qual a importância de se denunciar qualquer tipo de violência, especialmente contra a mulher e quais os melhores meios para se fazer o apelo?

Denunciar é de extrema importância, porque você quebra o ciclo de violência e faz exercer seus direitos, se sentido mais segura! As denúncias podem ser feitas pela vitima ou por qualquer outra pessoa que tenha presenciado qualquer tipo de violência. A central de denúncia de violência contra a mulher é o 180. Mas é bom ressaltar que em caso de situações que estejam ocorrendo no momento, com risco de agressão física ou tentativa de FEMINICÍDIO, é necessário imediatamente acionar o 190. A mulher também pode e deve se dirigir à delegacia especializada na violência contra a mulher mais próxima da sua residência e prestar queixa”!

Qual maior conselho você pode dar para a mulher que está sendo vítima de violência, seja ela qual for?

Que ela possa sair do seu ‘’corpo’’ pra ver a si mesma e enxergar como ela é uma pessoa especial, linda, inteligente, que ela é única. Ela merece e deve ser feliz, que a vida vai além da situação que ela se encontra . Estamos juntas pra ajudar e apoiar ela. Por mais difícil que seja dar o primeiro passo, ele é necessário para que ela possa continuar caminhando rumo a liberdade e a felicidade que esta sendo roubada dela”!

Violência contra a mulher
Depoimento real – @maselenuncamebateu
Vamos falar de esperança, de recomeço? Acredito que a busca pela liberdade de ser mulher é um caminho árduo e extremamente necessário. A mulher não é inferior, não é objeto, não é posse, nem tampouco saco de pancadas. Nós, mulheres, somos seres fortes, incríveis e fundamentais no mundo. Voltar a reconhecer o nosso valor é um passo importante e enxergar esperança no recomeço é fundamental. O que você poderia falar deixar de inspiração com base na sua própria história, Débora?

Eu costumo dizer que quem esta em uma relação abusiva não está nessa relação sozinha; que as pessoas que estão ao seu redor e as amam, como família e amigos também estão sofrendo ao ver essa pessoa sofrer. Então, quando você toma a decisão de acabar com esse ciclo de violências, você muda sua vida e a de quem te ama e te quer bem. A minha inspiração, além de querer ser quem eu estava sendo privada de ser, foi meu filho. Eu não aguentava mais ver ele viver em um ambiente tão tóxico e sufocante, então com base no que eu fiz e mudou minha vida, foi pensar no quão destruidor aquela relação estava sendo pra mim e pras pessoas que me amam; o quanto e eu estava afastada de mim, da minha essência e de quem estava de mãos estendidas pra mim a tanto tempo e eu não podia enxergar. Então meu conselho pra você que esta nessa relação hoje é:

Olhe ao seu redor e veja quantas pessoas estão sendo vitimas além de você, enxergue essas mãos ao seu redor tentando te ajudar, segure e vá em busca da sua liberdade e da vida linda e de paz que você merece!

Uma mulher com conteúdo faz o que quer!

Falar de violência contra a mulher nada adianta quando limitamos a números, dados apavorantes e soluções técnicas. Todas as pessoas do mundo devem estar cientes da realidade, do que a vítima passa. Para mudarmos essa realidade desumana, é importante começarmos com a conscientização além da imparcialidade. É fundamental deixar aflorar nosso lado humanizado. O combate da violência contra a mulher começa com cada um de nós, dentro das nossas casas e na educação que damos aos nossos, bem como com exemplos.

Inclusive, essa luta não é apenas da mulher. Precisamos também de homens engajados em apoiar essa causa. Espero que essa matéria sirva como reflexão e ponto de partida para atitudes que, de fato, mudem essa realidade. Seja você vítima ou espectador, não se cale, denuncie qualquer tipo de violência contra a mulher. Precisa de ajuda? Ligue 180 e conte com apoio e direcionamento sem julgamentos no @maselenuncamebateu. Para mais conteúdo relacionado, acesse diariamente a Revista Oka.

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